• Thainá Carline

Arte x Design: Um gradiente de definições e aplicações



A definição de design enquanto projeto em que “a forma segue a função”, conforme afirmação do arquiteto Louis Sullivan e incorporada pela Bauhaus, costuma ser citada para imprimir uma separação entre os conceitos de design e arte. Para muitos, esse segundo apresenta-se como uma forma de expressão de sentimentos em que a subjetividade permite várias interpretações da obra, e que não tem necessariamente um propósito pré definido. Nesse texto, pretendo trazer alguns pontos que mostram como algumas aplicações montam um gradiente entre esses dois aspectos da criação visual e permitem um design que segue caminhos artísticos e vice-versa.


Bauhaus e Arte Primitiva

Exposição “Bauhaus Imaginista” | Imagem: Reprodução/ SESC São Paulo


Conhecida como a escola mais importante da história do design, a Bauhaus revolucionou a modernidadeseguindo principalmente a ideia de funcionalidade de todo projeto criado por seus alunos e professores. Mas é preciso ressaltar a forte influência das artes visuais de culturas tidas como primitivas na produção desses modernistas, principalmente no “interesse em materiais, técnicas e ferramentas”, como afirma Susanne Burkhardt em seu texto “Quem aprende com quem?” sobre a exposição Bauhaus Imaginista.

A síntese entre arte, artesanato e design pretendida pela Bauhaus foi posterior à criação de diversos artistas de diversos lugares das Américas e do norte da África, pelos quais alunos e professores da escola alemã ficaram exilados durante o regime nazista. Essa informação, muitas vezes minimizada diante da grandeza que é conferida à Escola, é importante para refletirmos como na verdade uma trajetória artística pode nos levar a projetos de design incríveis e muito bem fundamentados, inclusive definindo quais marcas estéticas estarão presentes no nosso portfólio.


Design com sentimento

A luta pelos direitos da comunidade negra | Imagem: Reprodução/ Ípsilon


Na divisão imposta entre design e arte, muitas vezes o sentimento é colocado no time da arte, deixando para o trabalho dos designers apenas a relação lógica e racional dos projetos que existem para resolver um problema. Mas seria possível dissociar qualquer trabalho feito por um humano das suas emoções?Nossas subjetividades podem ser bloqueadas enquanto produzimos algo? Para além dessa discussão é possível, sem muito esforço, pensar em projetos de design que são movidos por sentimentos – sem a intenção de esconder esse fato.


Design de protesto | Imagem: Reprodução/ Cultura SP



O design de protesto, por exemplo, invariavelmente é conduzido pela indignação, raiva ou ainda esperança de colaborar ativamente com alguma causa. O sentimento aqui está presente de maneira essencial, o que não altera seu status de projeto e torna-se parte do método de criação, permitindo inclusive uma uma melhor relação com o público/cliente. O trabalho de Emory Douglas, ministro da cultura do Pantera Negra, na produção do jornal do partido possuía uma preocupação com o público – uso prioritário de imagens para o entendimento das pessoas analfabetas, e com o processo de impressão – usando apenas o preto e mais uma cor de tinta sobre o papel branco; além da criação de símbolos e ícones que até os tempos atuais ilustram outras produções de design de protesto, motivando o sentimento e a ação em outras pessoas.

Muitos outros designers navegam nesse encontro do mar com o rio, os projetos de design ainda se enchem de sentimentos nos materiais expostos na página Design Ativista, nos trabalhos com ilustração de Oga Mendonçae Camila Rosa, e em todo o portfólio de Diego Justino, além de tantos outros. Mais um exemplo onde a arte e o design caminham juntos.


Arte e design caminham juntos | Imagem: Reprodução/ Sock it to Me Cool Girl



Arte enquanto projeto

Como já citado, é muito comum que a definição de arte seja dada enquanto manifestação subjetiva em que a mensagem pode chegar de diversas formas a diferentes públicos. Essa é uma das possibilidades da arte, ela pode acontecer como uma catarse do artista em todas as suas formas, mas não há também processos de criação artística que se iniciam com um projeto, com mensagem, público e locais de veiculação definidos através de muito estudo? Certamente a maior característica da arte é a sua multiplicidade, em sua abrangência cabem muitas influências, mesmo de algo que surgiu muito depois dela, como os métodos de criação do design.

Arte não é design. E isso não é dito com a intenção de diminuir qualquer dos dois, mas para marcar as individualidades de ambos e ressaltar os momentos em que a existência de um dá a mão a existência do outro. Para designers que também são artistas, essa relação pode ficar ainda mais evidente. Em meus trabalhos enquanto colagista, por exemplo, além do uso das habilidades técnicas que aprendo e desenvolvo sendo diretora de arte, procuro aplicar sempre métodos de criação que também conheci na minha pesquisa em design, e essa relação se retroalimenta quando meu estudo sobre máscaras bantu e iorubá resultaram na produção de uma série de cartazes que reúne meus dois caminhos profissionais.


Fé no êxito | Imagem: Reprodução/ Fernando Xavier



O artista visual e designer Fernando Xavier afirma que, por vezes, tenta separar o design e a arte, mas acaba usando os mesmos processos para ambos. Mais uma vez a influência do método de design aparece no fazer arte, sem que ela perca sua essência de expressão. “O que antes era pra ser algo que só expressasse o que eu tô sentindo naquela hora, vira algo pensado com uma função a mais, o público que eu quero atingir, como eu quero atingir, a história que eu quero contar em cada peça, como eu vou contar a história naquela peça e etc. Acho que todas essas pequenas ressalvas se somam no processo de criação entre designer/ artista”, diz Xavv.



Caminhos artísticos num projeto de design



Uma das facetas do design | Imagem: Reprodução/ Mariany Carvalho

No episódio “Arte como possibilidade para projetos de design” do podcast Clandestina, a designer maranhense Mariany Carvalho fala sobre a existência das produções em design, como o design conceitual, que são construídas de forma que a linha entre design e arte fica ainda mais tênue. Ela afirma que “não faz sentido a gente fechar essa fronteira porque ela tem muito a trazer pra gente e muito a enriquecer o que a gente produz”, o que é uma visão muito importante para que nossa perspectiva se mantenha aberta para caminhos que fujam da polarização e do funcionalismo no design.

Durante a conversa estabelecida com a designer e artista visual Laís Fonseca, também é conversado sobre a possibilidade de uso da arte em um lugar que não seja o segundo plano em design de interiores, sem perder o status de projeto. Esse questionamento possibilitou que Mariany não se mantivesse numa dinâmica onde a arte é “domesticada” para uso no design, além de trazer uma representação com caminhos mais artísticos que tragam um conceito mais colaborativo para o cliente.

O diálogo sobre as possibilidades de relação entre dois campos que estão essencialmente entrelaçados como a arte e o design evolui de um momento em que as definições estiveram em pontos muito distintos, negando aplicações em que não é possível separar tão bem um do outro, para um momento de maturidade em que podemos olhar melhor para essa colaboração entre ambos.


Arte e design são forças individuais que trabalham muito bem juntas, deixemos as fronteiras abertas para nosso crescimento profissional!





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